Malcata in-situ
A Serra da Malcata é considerada como uma das áreas históricas de ocorrência de lince-ibérico em Portugal, que albergou parte de uma população transfronteiriça que inclui a Serra da Gata, em Espanha. Ao longo das últimas décadas, esta população tem vindo a sofrer uma forte regressão, a qual resultou, essencialmente da perda de habitat natural e do colapso das populações de coelho-bravo.
Como consequência da campanha “Salvemos o lince e Serra da Malcata”, da responsabilidade da Liga Portuguesa para a Conservação da Natureza (LPN), foi criada, em 1981, a Reserva Natural da Serra da Malcata (RNSM), através do Decreto-Lei no 256/81, de 16 de Outubro. De acordo com este documento, esta Área Protegida (AP) tem como principal objectivo desenvolver acções de conservação que possibilitem a viabilização da população de lince-ibérico.
A partir de 1988 foram conduzidas várias medidas que, ao longo dos anos, se revelaram pouco eficazes para deter o processo regressivo da espécie. A fragmentação da aplicação das acções, não só a nível temporal, como também a nível do espaço de intervenção, foram a principal causa para o sucedido.
No contexto acima exposto e considerando que as populações de lince-ibérico têm vindo a sofrer uma regressão vertiginosa não só no território nacional, mas também, em toda a Península Ibérica, revelou-se fundamental aplicar um sistema integrado de recuperação dos habitats e presas da espécie com medidas específicas de conservação ex-situ como ferramenta de apoio à recuperação daquela espécie de felino. As condições particulares da Serra da Malcata, como zona histórica de presença de lince e como Área Protegida, com uma vasta zona de interdição a caca e com uma equipa de trabalho permanente, tornam esta área fundamental para atingir a meta proposta.
Ao longo da última década e meia foram identificadas algumas ameaças que urge controlar:
Degradação do habitat natural
Durante a década de setenta cerca de 2600 ha de habitat favorável à presença de lince-ibérico, localizados no interior da actual RNSM, foram convertidos em áreas florestadas, especialmente com resinosas e eucaliptos. A contínua acção de incêndios florestais e de processos erosivos foram também um importante contributo para a destruição de áreas de ocorrência de lince. Como consequência directa do abandono das práticas agrícolas tradicionais, os locais de alimentação, utilizados pelo coelho-bravo, foram invadidos por vegetação arbustiva. Estas áreas, que ocupam cerca de 40% da Serra da Malcata, são caracterizadas por apresentarem uma baixa diversidade florística, a qual condiciona a densidade de presas;
Regressão das populações de presas
As presas, particularmente o coelho-bravo, foram afectadas, não só pela degradação da paisagem, mas também pela introdução de doenças víricas. A mixomatose, introduzida na Europa no fim dos anos 50, e, mais recentemente, a doença hemorrágica viral, tem vindo a contribuir para um decréscimo acentuado das populações deste lagomorfo. Actualmente, existem evidências no sentido da densidade desta espécie ser cerca de 5% da verificada durante os anos 50 e 60, sendo o habitat adequado apenas 15% da área total. A depressão das populações de coelho-bravo afectou de forma bastante significativa a população de lince-ibérico, a qual, em apenas 10 anos, regrediu em cerca de 80% a área de distribuição na Serra da Malcata. Em 2003, a densidade média absoluta de coelho-bravo era de 0,5 – 1 indivíduos/ha. Esta densidade condiciona a sobrevivência e sobretudo o sucesso reprodutivo do lince-ibérico, sendo crucial para viabilizar a sua conservação incrementar a densidade desta presa;
Resolução destas ameaças
O projecto LIFE “Recuperação do habitat e presas de Lynx pardinus na Serra da Malcata”, finalizado em 2003, procurou actuar na resolução destas ameaças. Contudo, as suas acções foram localizadas e numa área restrita. Com a candidatura ao Programa Operacional do Ambiente, em 2003, pretendeu-se alargar amplamente o nível de intervenção sobre a paisagem.
O principal objectivo do projecto foi desenvolver um sistema de recuperação do ecossistema do lince, integrado no plano de acção nacional para a conservação daquela espécie, que preservasse os mais relevantes elementos funcionais do mesmo, de uma forma sustentada.
As medidas aplicadas consistiram na recuperação das formações vegetais naturais e na progressiva conversão de áreas degradadas, optimizando a sua adequabilidade para as espécies acima referidas. A densidade de coelho-bravo foi incrementada através de acções de maneio de habitat (abertura de pastagens e criação de abrigos artificiais) e mediante a realização de repovoamentos.
Este projecto teve como objectivo contribuir para a viabilização da conservação das espécies prioritárias presentes na AP, especificamente lince-ibérico e abutre-preto, mediante uma correcta gestão da paisagem.